Archive for the ‘Trechos & Apetrechos’ Category

Duas impressões – bem diferentes – sobre o nosso trabalho

setembro 24, 2008
  • I. Natalia Bonfim, paciente do Instituto A Casa, nos escreve:

O palhaço que não acredita em Deus

Quarta feira é dia de música no hospital-dia, mas a esta altura o som já havia silenciado. Lá fora, no jardim, fora eu restaram mais três pessoas, o palhaço Bonito e a palhaça Du’Porto. Conversavam palhaçadas e eu ouvia, quieta, rindo… Não gosto muito de palhaços, especialmente os do circo, não vejo um pingo de graça nas apresentações, mas a gente se afeiçoa a certas pessoas… e eu me afeiçoei aos palhaços. Especialmente depois desta quarta feira que eu vou contar.
Comigo e os palhaços estavam Romero, Cristina e Luciano (esses nomes foram modificados, para preservar a identidade dos pacientes). Cristina começou a falar em Deus com Du’Porto. Eu estava sentada ao lado do Bonito. Ele vira e me pergunta: “Você acredita em Deus?” Eu respondo que não com a cabeça. Ele diz que não também, bem baixinho, como se estivesse contando um segredo. Depois reafirma, mais alto: “Eu também não acredito em Deus”, apontando para cima. Meus olhos dizem alguma coisa que até agora não sei dizer… Não é fala que se espera de um palhaço com nariz vermelho. O que eu vi foi o palhaço se despir, mostrar-se apenas humano… Ele teve essa coragem! E foi lindo, eu fiquei estupefata, raramente alguém faz isso.
Depois de um tempo levantamos. Os palhaços precisavam almoçar. Sentei num banco perto da cozinha, não deu dois minutos para a cozinheira me oferecer “um pouquinho de comida”, “só um pouquinho”. Du’Porto, ouvindo o convite para o almoço que rejeitei, senta ao meu lado e pergunta: “Posso te contar um segredo?” Então ela se despe também. “Já pesei 140kg e já pesei 40kg. Hoje eu descobri que o importante é a gente estar bem com a gente mesmo.”
Definitivamente os palhaços não queriam me fazer apenas rir, mas estavam contando seus segredos, tirando suas máscaras, queriam me fazer bem. Fiquei pensativa demais. Lembrei de uma frase do Shakespeare que diz: “A vida é apenas uma sombra ambulante, um pobre palhaço que por uma hora se espavona e se agita no palco, sem que depois seja ouvido; é uma história contada por idiotas, cheia de fúria e muito barulho, que nada significa.”
Precisei de um café. E depois com ele vomitei meu pensamento shakespeariano. Não concordo com ele… A vida não tem sido uma história contada por idiotas, mas por pessoas boas que me contam que não acreditam em Deus e quantos quilos já pesaram. Me senti bem, e o sentir-se bem fez lembrar que eu também sou ser humano, mas não sei ser. O ser humano sente fome… e eu estava sentindo. Foi aí que começou. Pequei mais um dos muitos copos de café que tomei naquela tarde para preencher o buraco do estômago. E vomitei muito. Até passar mal. De noite não dormi, tanto era o enjôo.
No dia anterior eu não havia comido nada de sólido, então estava realmente com fome. Agora eu ponho um nariz de palhaço, abaixo a cabeça e conto o que fiz. Deus não estava me olhando. Ninguém estava me olhando. Eu estava sozinha com a minha fome. Agora estou com você e a minha vergonha. Passei perto do lixo, vi um bife inteiro, pensei: “não parece tão sujo”. E peguei… E comi. Como uma mendiga. É triste demais fazer isso. Fui para o banheiro primeiro para vomitar, depois para chorar.
A vida não é palhaçada, não… é só o que tenho a dizer. O resto? O resto só Deus sabe….

  • II. A comissão julgadora da Lei de Fomento à Cidade de São Paulo nos escreve:

Comentário sobre projeto não contemplado pelo Programa de Fomento ao Teatro na Cidade de São Paulo

Comissão Julgadora: Berenice A. Raulino de Oliveira, Felisberto Sabino da Costa, Jane Pessoa da Silva, Marcos Marcelo Soler, Maria das Graças Cremon, Renato Ferracini, Silvia Fernandes da Silva Telesi

“O trabalho é digno – palhaços em hospitais psiquiátricos – mas a pesquisa artística deixa muito a desejar. Não há investigação nem compartilhamento e o foco está colocado no atendimento e em encontros que o grupo já realiza com os pacientes.
É um trabalho muito novo, pois a equipe tem apenas dois anos, e ainda há muito a pesquisar. Existe uma linha tênue entre ficção e delírio. Se o grupo conseguir pensar o fazer teatral, qual é o impacto do teatro na vida das pessoas, na formação do ator, em dramaturgia, estará apto a ser fomentado. É preciso unir o que estão vivendo com os pacientes a uma proposta artística.”

Novas leituras

julho 29, 2008

Ces maladies mentales nommées folie, Eveyne Caralp

O interesse do livrinho, e provavelmente o único, é conhecer a categorização dos chamados “Transtornos Mentais” feito pelas versões do DSM (Diagnostical and Statistical Manual of Mental Disorders). Tal categorização e suas eventuais falhas não são suficientemente discutidas no texto. Além disso, a exacerbada utilização de termos técnicos (nada contra eles, pelo contrário, mas quando são fora de propósito, ai, ai, ai) apenas pesam a leitura.

Pippo Delbono conta…

julho 15, 2008

O diretor italiano, Pippo Delbono, conhecido, entre outras coisas, por trabalhar em seu percurso teatral com pessoas ditas “diferentes” e “maginalizadas”, declara em seu livro Récits de Juin:
“Me contaram um fato que os psiquiatras franceses não entendem (os franceses querem entender tudo, né? e quando eles são psiquiatras, então, nem se fala!): por que o tratamento antidepressivo habitual não faz efeito em alguns tuaregues? Então eles foram até o continente africano para tentar entender. E eles constataram que, naquela tribo tuaregue, o fato de se atravessar a “noite escura”, como eles dizem, é uma condição essencial para se tornar um xamã, isto é, aquele que ajuda os outros.”

Deleuze e o Anti-Édipo

junho 4, 2008

Está em francês com legendas em italiano; é apenas um trecho recortado de uma das aulas de Gilles Deleuze em Vincennes; um primeiro contato para alguns, uma revisita para outros, de qualquer modo, para quem se interessa e para quem quer se interessar pelo assunto, vale a pena assistir

Emília, do Sítio do Picapau Amarelo, fala sobre loucura

maio 22, 2008

– …A loucura é a coisa mais triste que há…
– Eu não acho – disse Emília – Acho-a até bem divertida. E, depois, ainda não consegui distinguir o que é loucura do que não é. Por mais que pense e repense, não consigo diferençar quem é louco de quem não é. Eu, por exemplo, sou ou não sou louca?
– Louca você não é Emília – respondeu Dona Benta. – Você é louquinha, o que faz muita diferença. Ser louca é um perigo para a sociedade; daí os hospícios onde se encerram os loucos. Mas ser louquinha até tem graça. Todas as crianças do Brasil gostam de você justamente por esse motivo – por ser louquinha.
– Pois eu não quero ser louquinha apenas – disse Emília. – Quero ser louca varrida, como D. Quixote – como os que dão cambalhotas assim…

in Dom Quixote das Crianças, Monteiro Lobato
ed. brasiliense; 27ª edição, pag 52, 53

Dica bacana

maio 20, 2008

Saiu uma matéria muito interessante sobre um museu da Loucura, coisa de doido. Vale muito a pena dar uma olhada e se deixar atingir. É só clicar no link abaixo e boa viagem

http://cienciahoje.uol.com.br/120222

 

 

Artaud no “Grupo de Estudos”

maio 19, 2008

Postamos mais um texto a fim de fomentar a reflexão sobre temas que dizem respeito ao trabalho dos Fantásticos Frenéticos. Trata-se de uma carta pungente de Antonin Artaud dirigida aos médicos-chefes dos manicômios. Artaud faz uma denùncia comovida e comovente. Ótimo material para discussão. Veja o início:

“Senhores,
As leis e os costumes concedem-vos o direito de medir o espírito. Essa jurisdição soberana e temível é exercida com vossa razão. Deixai-nos rir. A credulidade dos povos civilizados, dos sábios, dos governos, adorna a psiquiatria de não sei que luzes sobrenaturais. O processo da vossa profissão já recebeu seu veredicto. Não pretendemos discutir aqui o valor da vossa ciência nem a duvidosa existência das doenças mentais. Mas para cada cem supostas patogenias nas quais se desencadeia a confusão da matéria e do espírito, para cada cem classificações das quais as mais vagas ainda são as mais aproveitáveis, quantas são as tentativas nobres de chegar ao mundo cerebral onde vivem tantos dos vossos prisioneiros? Quantos, por exemplo, acham que o sonho do demente precoce, as imagens pelas quais ele é possuído, são algo mais que uma salada de palavras?”

Para ler na íntegra, basta CLICAR AQUI, e boa leitura.

Sobre a loucura

maio 13, 2008

Roland Jaccard escreveu:
“A loucura goza de um certo prestígio cultural; ela promete, acredita-se, um universo primordial, uma existência selvagem, que abre um horizonte infinito de experiências. Na noite da razão, o homem é suposto comunicar com as forças geradoras que a natureza recusa ao entendimento. Nessa perspectiva, o louco aparece como uma figura quase mística e o delírio se metamorfoseia em ato criador.
Essa fascinação pela loucura, como experiência espiritual, como desconstrução de sistemas opostos, como recusa radical, só pode ser exacerbada pelas condições da vida real – e medíocre – de cada um; ela pertence, assim como a religião, ao registro da ilusão. Ceder à fascinação pela sedução estética da loucura é desconhecer ao que na loucura se abole. É sucumbir à tentação idealista. Nesse sentido, é preciso evitar “romantizar” o que vivem e experimentam os “doentes mentais”… PARA CONTINUAR LENDO CLIQUE AQUI!

“Cadáver adiado que procria.”

maio 1, 2008

D. SEBASTIÃO, REI DE PORTUGAL

Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou o meu ser que houve, não o que há.
Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?

Fernando Pessoa, ele mesmo

Skepsis

abril 28, 2008

Skepsis é o título do poema que abre Socráticas, poesias de José Paulo Paes, publicadas postumamente. É o primeiro que publicamos em nosso blogue. Outros textos que instigam e dialogam com nosso trabalho também serão posteriormente postados nesse espaço. Aguardem!

“Dois e dois são três” disse o louco.

“Não são não!” berrou o tolo.

“Talvez sejam” resmungou o sábio.