Duas impressões – bem diferentes – sobre o nosso trabalho

  • I. Natalia Bonfim, paciente do Instituto A Casa, nos escreve:

O palhaço que não acredita em Deus

Quarta feira é dia de música no hospital-dia, mas a esta altura o som já havia silenciado. Lá fora, no jardim, fora eu restaram mais três pessoas, o palhaço Bonito e a palhaça Du’Porto. Conversavam palhaçadas e eu ouvia, quieta, rindo… Não gosto muito de palhaços, especialmente os do circo, não vejo um pingo de graça nas apresentações, mas a gente se afeiçoa a certas pessoas… e eu me afeiçoei aos palhaços. Especialmente depois desta quarta feira que eu vou contar.
Comigo e os palhaços estavam Romero, Cristina e Luciano (esses nomes foram modificados, para preservar a identidade dos pacientes). Cristina começou a falar em Deus com Du’Porto. Eu estava sentada ao lado do Bonito. Ele vira e me pergunta: “Você acredita em Deus?” Eu respondo que não com a cabeça. Ele diz que não também, bem baixinho, como se estivesse contando um segredo. Depois reafirma, mais alto: “Eu também não acredito em Deus”, apontando para cima. Meus olhos dizem alguma coisa que até agora não sei dizer… Não é fala que se espera de um palhaço com nariz vermelho. O que eu vi foi o palhaço se despir, mostrar-se apenas humano… Ele teve essa coragem! E foi lindo, eu fiquei estupefata, raramente alguém faz isso.
Depois de um tempo levantamos. Os palhaços precisavam almoçar. Sentei num banco perto da cozinha, não deu dois minutos para a cozinheira me oferecer “um pouquinho de comida”, “só um pouquinho”. Du’Porto, ouvindo o convite para o almoço que rejeitei, senta ao meu lado e pergunta: “Posso te contar um segredo?” Então ela se despe também. “Já pesei 140kg e já pesei 40kg. Hoje eu descobri que o importante é a gente estar bem com a gente mesmo.”
Definitivamente os palhaços não queriam me fazer apenas rir, mas estavam contando seus segredos, tirando suas máscaras, queriam me fazer bem. Fiquei pensativa demais. Lembrei de uma frase do Shakespeare que diz: “A vida é apenas uma sombra ambulante, um pobre palhaço que por uma hora se espavona e se agita no palco, sem que depois seja ouvido; é uma história contada por idiotas, cheia de fúria e muito barulho, que nada significa.”
Precisei de um café. E depois com ele vomitei meu pensamento shakespeariano. Não concordo com ele… A vida não tem sido uma história contada por idiotas, mas por pessoas boas que me contam que não acreditam em Deus e quantos quilos já pesaram. Me senti bem, e o sentir-se bem fez lembrar que eu também sou ser humano, mas não sei ser. O ser humano sente fome… e eu estava sentindo. Foi aí que começou. Pequei mais um dos muitos copos de café que tomei naquela tarde para preencher o buraco do estômago. E vomitei muito. Até passar mal. De noite não dormi, tanto era o enjôo.
No dia anterior eu não havia comido nada de sólido, então estava realmente com fome. Agora eu ponho um nariz de palhaço, abaixo a cabeça e conto o que fiz. Deus não estava me olhando. Ninguém estava me olhando. Eu estava sozinha com a minha fome. Agora estou com você e a minha vergonha. Passei perto do lixo, vi um bife inteiro, pensei: “não parece tão sujo”. E peguei… E comi. Como uma mendiga. É triste demais fazer isso. Fui para o banheiro primeiro para vomitar, depois para chorar.
A vida não é palhaçada, não… é só o que tenho a dizer. O resto? O resto só Deus sabe….

  • II. A comissão julgadora da Lei de Fomento à Cidade de São Paulo nos escreve:

Comentário sobre projeto não contemplado pelo Programa de Fomento ao Teatro na Cidade de São Paulo

Comissão Julgadora: Berenice A. Raulino de Oliveira, Felisberto Sabino da Costa, Jane Pessoa da Silva, Marcos Marcelo Soler, Maria das Graças Cremon, Renato Ferracini, Silvia Fernandes da Silva Telesi

“O trabalho é digno – palhaços em hospitais psiquiátricos – mas a pesquisa artística deixa muito a desejar. Não há investigação nem compartilhamento e o foco está colocado no atendimento e em encontros que o grupo já realiza com os pacientes.
É um trabalho muito novo, pois a equipe tem apenas dois anos, e ainda há muito a pesquisar. Existe uma linha tênue entre ficção e delírio. Se o grupo conseguir pensar o fazer teatral, qual é o impacto do teatro na vida das pessoas, na formação do ator, em dramaturgia, estará apto a ser fomentado. É preciso unir o que estão vivendo com os pacientes a uma proposta artística.”

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Uma resposta to “Duas impressões – bem diferentes – sobre o nosso trabalho”

  1. Rogério Jordão Says:

    Apenas atento para algumas questões, a partir da leitura do texto da Comissão Julgadora:

    1 – Qual é exatamente o problema de o foco estar “colocado no atendimento e em encontros que o grupo já realiza com os pacientes”? Ora, se um trabalho social (“digno”, como diz a Comissão) já tem um público (e se tem público é porque muito provavelmente é útil), então, eis um bom motivo para este ser apoiado pela administração pública. De resto, se o grupo pede patrocínio – e não o consegue – a tendência é que o serviço (de interesse público) deixe de ser oferecido (e o público atual desmobilizado). Este argumento da Comissão me parece questionável.

    2 – “É um trabalho muito novo, pois a equipe tem apenas dois anos, e ainda há muito a pesquisar”. De novo, este não parece ser um argumento razoável para desclassificar a priori de apoio público uma iniciativa de ação social na área de saúde. “Novo” não é sinônimo de ruim ou inútil (ainda mais nos tempos atuais onde as formas de vida, de pensar, de se organizar transformam-se em velocidade surpreendente). Diria até o contrário: a administração pública eficiente deve estar preparada para o novo, pois só assim cumprirá sua função de atender à comunidade em suas demandas mais complexas e atuais. A Comissão diz que “ainda há muito a pesquisar”; bem este é um pressuposto básico para qualquer atividade em qualquer ramo profissional. De novo, um argumento duvidoso.

    3 – “Existe uma linha tênue entre ficção e delírio”. Embora subjetivo, o pressuposto pode valer para todas as dimensões de nossas vidas. Me parece razoável que uma ação social organizada na área de saúde mental incorpore elementos de ficção e delírio em seu fazer cotidiano – qual o desmerecimento nisso? Administradores públicos que planejam o futuro (na Cultura, na Saúde, na Educação etc) freqüentemente precisam trabalhar com projetos ousados, interpretar sonhos coletivos (“demandas”), e por que não dizer, lidar com a linha tênue que divisa a “ficção” de “delírios”, tanto de governantes como de governados.

    Não conheço a fundo o trabalho destes “dignos” palhaços, nem tão pouco o projeto apresentado à Prefeitura, para opinar sobre o mérito da aprovação ou não do financiamento; mas é certo que este texto da Comissão nos sugere uma avaliação rala das questões envolvidas.

    Rogério Pacheco Jordão, jornalista.

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