Archive for julho \29\UTC 2008

Novas leituras

julho 29, 2008

Ces maladies mentales nommées folie, Eveyne Caralp

O interesse do livrinho, e provavelmente o único, é conhecer a categorização dos chamados “Transtornos Mentais” feito pelas versões do DSM (Diagnostical and Statistical Manual of Mental Disorders). Tal categorização e suas eventuais falhas não são suficientemente discutidas no texto. Além disso, a exacerbada utilização de termos técnicos (nada contra eles, pelo contrário, mas quando são fora de propósito, ai, ai, ai) apenas pesam a leitura.

A B C de julho

julho 23, 2008


Adão

A de Adão
B de Bonito
C de Comendador
Paulo Federal (o palhaço Adão) foi convidado a visitar e a cobrir parte das férias dos Fantásticos Frenéticos durante essa semana de julho no Instituto A Casa. Paulo Federal é um dos integrantes do Jogando no Quintal e um velho conhecido de Nando Bolognesi e Nereu Afonso da Silva.
Adão dará novamente os ares de sua graça na Casa, na semana que vem.

Pippo Delbono conta…

julho 15, 2008

O diretor italiano, Pippo Delbono, conhecido, entre outras coisas, por trabalhar em seu percurso teatral com pessoas ditas “diferentes” e “maginalizadas”, declara em seu livro Récits de Juin:
“Me contaram um fato que os psiquiatras franceses não entendem (os franceses querem entender tudo, né? e quando eles são psiquiatras, então, nem se fala!): por que o tratamento antidepressivo habitual não faz efeito em alguns tuaregues? Então eles foram até o continente africano para tentar entender. E eles constataram que, naquela tribo tuaregue, o fato de se atravessar a “noite escura”, como eles dizem, é uma condição essencial para se tornar um xamã, isto é, aquele que ajuda os outros.”

Índios, palhaços e loucura

julho 4, 2008

O palhaço e psiquiatra Frederico Galante, fundador dos Fantásticos Frenéticos, enviou o texto abaixo para ser publicado em nosso blog. É um relato sensível e poético da experiências que ele está vivendo em sua temporada na Amazônia. Boa leitura.

 

Pensei em escrever um texto mais erudito, cheio de citações e referências, mas escrevi e desescrevi mil vezes. Não tenho simpatia pela escrita rebuscada, sentido de tocar o pensamento, não meu sentir. Pois tento e não descarrilha, sei lá.

Escrevo tipo depoimento, meu vivido nestes anos de psiquiatria. Nestes anos de palhaço. Lembro de gente pensando muito e cara sisuda.  O corpo retesado por dor ou por motivo de fechar a alma. Sei lá, lembro tanto que até me esqueço.

Aí encontro este Artaud, que escreve carta. Mas ele está longe, sei não. Grita tanto, que não escuto. Tenho vontade de encontrar com ele e abraçá-lo bem forte, até ele chorar. Chorar resolve tanto. Vou escrever para ele, carta de chorar, porque choro também, sem saber o que fazer. Melhor esperar. Tudo passa, já dizia Juliana Balsalobre, calma que só, saber de quem já foi e já voltou. Saber da vivida.

E tem o outro, que escreve mais lúcido, diplomata, esperto. Este fala bem, bonito. Entende a dor do louco. Autoriza a razão dos cientistas e dos terapeutas. Este acalma, por parecer que entende.  Mas também está longe, no meio dos livros. Enxergo um pouco ele, sorrindo de alívio. Sei lá, como eu e meu irmão João, quando a gente brincava de guerra e ele se escondia na sua trincheira. Era o mesmo sorriso. Sorriso de João Grandão.

Mas tem o louco Raul. Que me lembro bem dele, quase todo dia. O louco Raul, grande, profeta. Que saudade tenho dele. Que nem me conte, que me vem soluço de chorar. “…O rico vai ficar cada vez mais rico e o pobre cada vez mais pobre…”, vocifera Raulzão, que não sabe se é boi ou homem. Ele diz coisas de ficar. Ele sabe o fim do mundo. E ele sente. Eu queria poder expressar que nem ele o meu sentir o mundo, agora no seu fim.

Sei lá, se os meus olhos são meus ou do Raul. Porque enxergo melhor com os óculos dele. E o corpo dele míngua, pois a alma vai e volta. Um corpo descuido de gente, mais forma de anjo, que ele sabe ser.

Mas tem o louco Comendador. Que me lembro bem dele, quase todo dia. O louco Comendador, grande, profeta. Que nem me conte, que me vem soluço de chorar. “…Estou surfando na onda do tempo…”, declama Comendador, bambeando na altura de sua sabedoria. E o louco Comendador grita de feliz quando vê manga na cozinha. Ou quando pode ensopar o pão no caldo de feijão.

O louco Comendador não caminha direito, mas vai mais rápido. Ele tem muitas pernas. Pego carona nas suas costas e recebo o alento do perdão. Pois que tudo é de relativizar. Não tem o certo e o errado.

Aí o louco Comendador me pede para traçar paralelos ou comparações entre mundos. Entre o palhaço atuando com índios ou com os frenéticos. Uma pergunta que só se responde de raspão, pois que a experiência foi de raspão.

Vou responder a ele e ao Raul. O mundo está acabando. Tem gente se matando por descuido de desaprender da vida. Quem vive sentado, esquece que sabe andar. O homem está aprendendo a se locomover parado, só com o olho cego da caixa da televisão. O homem-boi, caminhando ingênuo para o matadouro.  O homem que de pequeno acha que o leite já nasce dentro da caixa e não vem da vaca. O homem que não sabe mais brincar e prefere fazer amor com o computador.

Este é o homem que está doente, pois nem sabe de onde vem. Pois nem sabe viver sem energia elétrica ou tecnologia. Pois nem sabe preparar comida sem fogão ou comer aquilo que plantou ou caçou. Este homem-boi, homem-frágil, quebra tão fácil. É só pegar doença, que o corpo cansa e não reage. Basta só um raspãozinho de dengue que tudo se acaba. Basta uma ameaça, e a reação é de morrer de medo.

Este é o homem- espectador, do qual o louco, por não sei qual exata razão, e a meu ver, se livrou. Pois arrisco em dizer que o louco nunca teve acalanto ou proteção real. O louco nunca foi realmente amado, um amor libertador, não aprisionador. O louco teve que sobreviver à total solidão e acabou achando acalanto em si mesmo, no calor da imaginação, no embrulho dos jornais que envolvem o seu corpo largado.

O índio não tem a solidão do afeto. Cresce muito bem cuidado e amado, cheio de gente ao lado, que sabe acudir sem demasia. Mas o índio tem a distância do conforto tecnológico, tem a solidão da natureza, que ensina a se virar sozinho e reagir à fome e à tempestade. O índio não aprendeu a ser espectador, pois tem que ser ativo, para sobreviver.

Assim, de raspão, acho que o louco e o índio se assemelham pela obrigação de serem ativos para sobreviver. Não há espaço para a passividade. Se não, vem o açoite da morte. Mas tudo isso é interpretação minha, a pedido do louco Comendador, e de novo, bem de raspão.

O fato é que fazer palhaçadas com os índios e com os loucos tem coisa em comum. Não há muito interesse em ficar parado assistindo os palhaços. Tanto os índios, como os loucos, não vêem graça nas gags, nas pirotecnias palhacísticas, nas construções dramatúrgicas. Eles vêem graça no que é bem de verdade e eles estão vivendo juntos. Tipo quando me levaram para pescar e eu quase cai da canoa. Tipo quando a Bifi chegou caminhando com a Quinan, não viu o poste e deu a maior topada, sem querer. Tipo quando eu não sabia o que fazer quando a paca saísse da toca e eu esperando ela sair, enquanto o índio chuchava na outra saída da toca.

O louco gosta de tomar banho de mangueira junto com os palhaços, gosta de improvisar música junto, gosta de dançar junto, gosta de andar ao lado dos palhaços. E, arriscando muito, acho que eles também gostam quando o palhaço delira junto com eles, acreditando nas suas idéias alucinantes. Tipo quando o paciente contou que era abduzido por ETs e o Comendador se interessou e pediu para encontrar com os ETs e suas naves espaciais e ir passear junto.

Os índios e os loucos têm as suas próprias brincadeiras. Os índios têm o jogo da cana, o jogo do mamão, onde está todo mundo com o pé na lama, não tem ninguém de fora.  Os loucos gostam, muitas vezes, de contar as suas histórias e compartilhar suas angústias. Há uma verdadeira disponibilidade para a relação, às vezes de formas muito ariscas, porém muito verdadeiras.

Enfim, o palhaço performático se esvazia no mundo dos índios e dos loucos. Em ambos os mundos, a princípio, percebo que há mais espaço para o palhaço relacional, como Os Fantásticos Frenéticos já conhecem muito bem.

E acho também, por motivo de mais filosofar, que o palhaço com os índios tem que se tornar mais índio, por fora e por dentro, e o palhaço, com os loucos, também tem que se tornar mais louco, por fora e por dentro.

Então, KAITCHÕ!!!!!!!!!! E, cito Raul: PÁRA, PÁRA, PARÁ TUDO!!!!!!!!!!

Vocês sabem como o universo começou e vai acabar?????

RESPONDAM!!!!!!!!!!

NUMA FODA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

E TUDO O QUE EU DISSE ANTES???????

ESTÁ TUDO ERRADO….

 


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