Archive for maio \31\UTC 2008

Pastel

maio 31, 2008

Não faz parte de nosso trajeto oficial, mas a visita dos Fantásticos Frenéticos à barraca do pastel na feira que se arma nas proximidades do Instituto A Casa tem grandes chances de entrar para nossa rotina. É que na última terça, os palhaços Comendador e Bonito, assaz esfomeados, não resistiram e, a procura do que comer, misturaram-se aos fregueses e feirantes. Como era de se imaginar, foram abordados pelos frequentadores do local, curiosos em saber o que dois palhaços faziam por ali. Nossas respostas, invariavelmente, os direcionavam à leitura deste blogue, pois é ele, por enquanto, o melhor meio para o público em geral conhecer nosso projeto.
Se esta é sua primeira visita ao blogue, dê uma olhada nos artigos anteriores e nas páginas da coluna da direita; se você for um velho conhecido, veja o que mudou, o que foi discutido e acrescentado. A todos, boa leitura e bom passeio por nossos textos e imagens. 

Perspectivas para os Fantásticos Frenéticos

maio 23, 2008

No encontro semanal de nosso grupo de estudos – realizado em 22/05/08 – conversamos muito sobre quais rumos imaginamos para nosso projeto. Reafirmamos a vocação para o encontro como sendo nosso grande motor, o encontro entre o palhaço e o paciente de instituições psiquiátricas. Perguntamos-nos se essa vocação ainda sustentava nosso trabalho. Após três anos promovendo o encontro entre o palhaço e os portadores de transtornos psíquicos constatamos que esse encontro ainda nos nutre e nos motiva a continuar.
Quais aspectos desse encontro o torna tão instigante? Até que medida estamos nos relacionando com um imaginário fantástico que cerca o paciente psiquiátrico e não com seres humanos como nós? O que existe de peculiar nesse encontro que o torna tão vital e atraente? Será que não deveríamos encontrar novas formas de repartir aquilo que vivenciamos? Quais poderiam ser essas novas formas? Oficina de literatura? Teatro? Não estaríamos nos transformando numa espécie de caça talentos ao buscar essas tais novas formas em oficinas artísticas? De onde vem essa “fantasia” segundo a qual o louco é um artista marginalizado? O que queremos desenvolver a partir desse encontro?
Falamos de Estamira e da glamurização da loucura.
Como sempre acabamos o encontro com muito mais dúvidas do que respostas. Ainda bem.
Sentimos a falta de nosso companheiro de grupo de estudos, o Emílio Terron, que aproveitou o feriado para fugir de São Paulo.
Assistimos a um documentário francês sobre Antonin Artaud e marcamos o próximo encontro para o dia 29/05.
Para saber mais o que aconteceu sobre esse encontro, leia a análise de Juliana Dorneles clicando AQUI!.

Emília, do Sítio do Picapau Amarelo, fala sobre loucura

maio 22, 2008

– …A loucura é a coisa mais triste que há…
– Eu não acho – disse Emília – Acho-a até bem divertida. E, depois, ainda não consegui distinguir o que é loucura do que não é. Por mais que pense e repense, não consigo diferençar quem é louco de quem não é. Eu, por exemplo, sou ou não sou louca?
– Louca você não é Emília – respondeu Dona Benta. – Você é louquinha, o que faz muita diferença. Ser louca é um perigo para a sociedade; daí os hospícios onde se encerram os loucos. Mas ser louquinha até tem graça. Todas as crianças do Brasil gostam de você justamente por esse motivo – por ser louquinha.
– Pois eu não quero ser louquinha apenas – disse Emília. – Quero ser louca varrida, como D. Quixote – como os que dão cambalhotas assim…

in Dom Quixote das Crianças, Monteiro Lobato
ed. brasiliense; 27ª edição, pag 52, 53

Dica bacana

maio 20, 2008

Saiu uma matéria muito interessante sobre um museu da Loucura, coisa de doido. Vale muito a pena dar uma olhada e se deixar atingir. É só clicar no link abaixo e boa viagem

http://cienciahoje.uol.com.br/120222

 

 

Artaud no “Grupo de Estudos”

maio 19, 2008

Postamos mais um texto a fim de fomentar a reflexão sobre temas que dizem respeito ao trabalho dos Fantásticos Frenéticos. Trata-se de uma carta pungente de Antonin Artaud dirigida aos médicos-chefes dos manicômios. Artaud faz uma denùncia comovida e comovente. Ótimo material para discussão. Veja o início:

“Senhores,
As leis e os costumes concedem-vos o direito de medir o espírito. Essa jurisdição soberana e temível é exercida com vossa razão. Deixai-nos rir. A credulidade dos povos civilizados, dos sábios, dos governos, adorna a psiquiatria de não sei que luzes sobrenaturais. O processo da vossa profissão já recebeu seu veredicto. Não pretendemos discutir aqui o valor da vossa ciência nem a duvidosa existência das doenças mentais. Mas para cada cem supostas patogenias nas quais se desencadeia a confusão da matéria e do espírito, para cada cem classificações das quais as mais vagas ainda são as mais aproveitáveis, quantas são as tentativas nobres de chegar ao mundo cerebral onde vivem tantos dos vossos prisioneiros? Quantos, por exemplo, acham que o sonho do demente precoce, as imagens pelas quais ele é possuído, são algo mais que uma salada de palavras?”

Para ler na íntegra, basta CLICAR AQUI, e boa leitura.

O Palhaço Relacional x O Palhaço Performático

maio 15, 2008

No último encontro de nosso Grupo de Estudos, nos dedicamos ao Texto “O Clown Relacional” de Christian Moffarts. Esse texto apresenta um pouco dos fundamentos da “Asbl Art, Clown & Thérapie” que desenvolve pesquisas e atividades centradas no palhaço como arte terapia.

O conceito de Palhaço Relacional, apresentado nesse texto, tem muitas correlações com o trabalho que realizamos junto às insituições psiquiátricas que visitamos. Pretendemos continuar estudando esse texto em nossos próximos encontros.

Contamos com  a participação de um palhaço amigo, que passa uma temporada no Brasil, o Claudio Carneiro, que conhecemos na época em que trabalhávamos nos Doutores da Alegria e no Jogando no Quintal. Ele foi embora trabalhar no Cirque De’Soleil. Foi um enorme prazer reencontrá-lo.

Conversamos muito sobre o conceito de Palhaço Relacional. Chegamos à conclusão de que seria mais fácil de entender esse conceito se o confrontássemos com a idéia de um palhaço performático. Enquanto esse último pressupõe suma relação entre espectador e ator, onde um atua e outro assiste, o clown relacional pressupõe uma relação horizontal, onde o encontro entre iguais, baseado no jogo, é o pilar da relação.

 Acabamos discutindo muito sobre a idéia de loucura, um tema sempre muito atraente. Como sempre, não chegamos à conclusão alguma. O que nos parece muito saudável. 

Sobre a loucura

maio 13, 2008

Roland Jaccard escreveu:
“A loucura goza de um certo prestígio cultural; ela promete, acredita-se, um universo primordial, uma existência selvagem, que abre um horizonte infinito de experiências. Na noite da razão, o homem é suposto comunicar com as forças geradoras que a natureza recusa ao entendimento. Nessa perspectiva, o louco aparece como uma figura quase mística e o delírio se metamorfoseia em ato criador.
Essa fascinação pela loucura, como experiência espiritual, como desconstrução de sistemas opostos, como recusa radical, só pode ser exacerbada pelas condições da vida real – e medíocre – de cada um; ela pertence, assim como a religião, ao registro da ilusão. Ceder à fascinação pela sedução estética da loucura é desconhecer ao que na loucura se abole. É sucumbir à tentação idealista. Nesse sentido, é preciso evitar “romantizar” o que vivem e experimentam os “doentes mentais”… PARA CONTINUAR LENDO CLIQUE AQUI!

Enquanto isso, no Grupo de Estudos…

maio 7, 2008

Além de nossas duas visitas semanais ao Institudo A Casa, retomamos nessa semana as atividades do Grupo de Estudos dos Fantásticos Frenéticos. Na verdade, um primeiro encontro de aquecimento para a retomada foi organizado na semana passada, onde Nando Bolognesi e Nereu Afonso da Silva vasculharam os textos, informações e vídeos já discutidos no passado. Para o encontro dessa semana, voltaram ao grupo Juliana Dorneles, atriz e doutoranda do Núcleo de Subjetividade [PUC-SP] e o filósofo Emílio Terron. Um primeiro texto se impôs e servirá como tema de nossos debates nos próximos encontros. Trata-se de Le clown relationnel – heureux qui clownmunique avec les personnes différentes, do palhaço e terapeuta belga Christian Moffarts. A partir dele, observamos os pontos de interseção e as divergências entre o projeto belga e o nosso. O objetivo, como sempre, não é apontar vantagens, desvantagens, certos e errados, mas simplesmente enriquecer a reflexão sobre nossas ações a partir de questões que nem sempre oferecem uma resposta única e imediata.

“Cadáver adiado que procria.”

maio 1, 2008

D. SEBASTIÃO, REI DE PORTUGAL

Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou o meu ser que houve, não o que há.
Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?

Fernando Pessoa, ele mesmo