Gastão dá o recado

março 10, 2010

Gastão, o palhaço de Danilo dal Farra, há pouco começou a dar o ar de sua graça no Instituto A Casa,  como membro dos Fantásticos Frenéticos.

Danilo inaugura aqui seu espaço de reflexão acerca das intervenções de palhaços em instituições psiquiátricas. E aproveita para reaminar as discussões presentes nesse blog.

 

“O clown encarna os traços da criatura fantástica, que exprime o lado irracional do homem, a parte do instinto, o rebelde a contestar a ordem superior que há em cada um de nós.”     Federico Fellini
 
Esse é apenas um trecho de um texto do Fellini que, é claro, não se encerra nessa simples idéia (nem tão simples assim – maneira de dizer), outros argumentos de seu texto complementarão a reflexão que Fellini fez a respeito do Palhaço. Porém, propositadamente estabeleci esse recorte como fonte da minha reflexão sobre a presença do palhaço na instituição psiquiátrica.
 
Ao refletir sobre esse exato trecho escrito por Fellini, sinto que exercemos um papel, ali dentro da instituição psiquiátrica, que não é só tangível aos pacientes. Tão importante quanto, é essa nossa relação com os médicos, psicólogos, assistentes e funcionários que vão ficar em contato com esses pacientes quando formos embora. Quando oferecemos nossa presença naquele ambiente, de certa forma abrimos também um novo “lugar” onde, por alguns minutos, essas pessoas todas podem se relacionar de uma maneira diferente, se expressar de uma maneira diferente e fazer “bobagens” que dentro da “ordem” não poderiam ou seriam julgadas inadequadas. Acredito que ali o palhaço pode ser uma “ponte” entre esses pontos de vistas diferentes de um mesmo mundo. Pois do que mais estamos falando se não do “rebelde a contestar a ordem superior que há em cada um de nós”? Qual é o equilíbrio correto desse rebelde e da ordem para viver socialmente? Do racional e do irracional? Do impulso e do controle? Onde podemos assumir esse rebelde instintivo e, poeticamente, deixá-lo extrapolar a ordem superior? E quem, de uma forma ou de outra, não sabe desse rebelde e dessa ordem?      
Pra mim, praticamos esse dever poético de romper, com simplicidade, a dita “realidade existente” ou as estruturas socialmente “adequadas” ou a ordem superior, mas o devemos fazer como sem saber que estamos rompendo.  Assim oferecemos, dentro da instituição psiquiátrica, possibilidades alternativas. Caminhos alternativos (para os dois lados) de se verem e vivenciarem essas “realidades” e transformá-las por conseqüência ou colocá-las em comunicação. Podemos catalizar essa cumplicidade pois talvez possamos passear com maior naturalidade entre esses dois campos. Sinceramente, pensando na sociedade de hoje diria que há dois campos em desequilíbrio: um mais aceito, mas também em desequilíbrio pelo excesso da “ordem interna autoritária”, e outro que causa medo pelos excessos do rebelde. Não ousaria aqui generalizar de maneira simplista os males psiquiátricos, só tomo a licença de poetizar sobre a comunicação dos dois lados defendendo o não distanciamento e o não preconceito. Claramente são desequilíbrios bastante diferentes, mas o são – desequilíbrios.
 
Nada é por si só, nem uma doença, nem um ambiente, nem um trabalho, nem uma pessoa, nem um sofrimento e nem um distúrbio (seja ele de que ordem for). Tudo é pela forma de nos relacionarmos com ela (tanto conosco e com os nossos como com o outro e com o dos outros). Até a morte é a relação que se tem com ela. Não tenho dúvidas de que a maneira com que o palhaço propõe algumas relações lá dentro desse espaço cria possibilidades de transformações reais na leitura das pessoas sobre certos “conceitos”.Ou pelo menos a ampliação de um leque de alternativas. E consequentemente a posibilidade de comunicação, compreensão e aproximação.

Doutores da Alegria e Humanitas

junho 17, 2009

Semana de encontros para os Fantásticos Frenéticos.
Segunda-feira, dia 15 de junho, estivemos no Projeto Humanitas para um encontro com pelo menos 30 estudantes da área de Psicologia. E na próxima quinta, dia 18, são os Doutores da Alegria que abrem as portas de seu centro cultural para um bate-papo com nossos artistas. A entrada é franca e aberta ao público.
Compareça!
Doutores da Alegria
18/06
19h
Rua Alves Guimarães, 73
São Paulo – SP

Até lá!

Atualizando!

abril 28, 2009

É verdade, faz um bocado de tempo que não postamos notícias por aqui. Saibam que não é por falta do que falar. Pelo contrário. Muitas coisas (boas) nos aconteceram nesse começo de ano: Nando Bolognesi (palhaço Comendador) recupera-se bem de sua aventura no mundo encantado das células tronco. Aos poucos, traz seu vigor de volta às atividades dos Fantásticos Frenéticos, como ontem,  por exemplo, quando esteve ao lado de Nereu Afonso da Silva (palhaço Bonito) e do nosso cúmplice e  filósofo, Emílio Terron, no Seminário Quinzenal com a equipe do Instituto A Casa. Outra notícia boa é que, de janeiro para cá, novos palhaços (na verdade, velhos amigos e profissionais experientes) têm nos acompanhado em nossas visitas. São eles: Claudia Zucheratto (Zuzu), Vera Abbud (Emily), Paulo Federal (Adão) e Fritz (Dênis Goyos). A notícia menos boa – e única – é que, como vocês perceberam, não temos comunicado tudo isso com a presteza que desejamos. Esperamos, com esse post, sanar parte dessa “deficiência”. Até a próxima!

Palhaço fundador dos Fantásticos Frenéticos submete-se a transplante de medula

janeiro 19, 2009

Portador de esclerose múltipla, o palhaço Comendador irá se submeter a um transplante de medula. Para saber mais basta clicar no link abaixo.

 

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/saude/sd0401200901.htm

Fantásticos Frenéticos visitam assentamento do MST

janeiro 19, 2009

No encerramento da atividade dos Fantásticos frenéticos em 2008, fizemos uma visita ao assentamento Vinte de novembro, situado em Cordeirópolis, interior de São Paulo. Fomos a convite do palhaço Clerouak e sua companheira Lulu. Fizemos uma apresentação improvisada no teatro do assentamento. Fomos recebidos com muito carinho e atençao por todos do assentamento. Foi uma visita incrível que acabou com gostinho de quero mais. Infelizmente não fizemos nenhum tipo de registro fotográfico para que pudessemos compartilhar com vocês um pouco do ótimo astral que permeou nossa visita. Pretendemos voltar por lá em 2009, dessa vez faremos registros com imagens.

Sessão aberta do grupo de estudos recebe quase trinta interessados

novembro 11, 2008

Nossa sessão aberta do grupo de estudos foi um sucesso. Tivemos o prazer de receber quase trinta pessoas de diversas áreas – psicólogos, palhaços, terapeutas ocupacionais, psico-dramatistas e interessados no tema “arte e clínica” – e levar um papo descontraído e muito interessante. As discussões não foram previamente preparadas e brotavam em decorrência dos depoimentos e da troca de informações. Ficamos muito felizes com o espaço de discussão que estamos ajudando a criar juntamente com as pessoas interessadas que aceitaram nosso convite. Gostamos tanto que já decidimos realizar novas rodadas de discussões abertas, falta somente decidirmos a periodicidade desses encontros. Tão logo tenhamos notícias voltaremos a divulgar nesse blog e por mailing. Gostaríamos também de agradecer a participação valiosa de todos que aceitaram nosso convite e participaram desse primeiro encontro. Foi um enorme prazer recebê-los. Até a próxima.

outubro 29, 2008

Sessão aberta do Grupo de Estudos

outubro 29, 2008

Os Fantásticos Frenéticos convidam você para uma sessão aberta de seu grupo de estudos.

ARTE E CLÍNICA

Segunda-feira, dia: 10/11 às 20:30.

Rua Antônio Bicudo, 356 ap.1. Pinheiros. Fone:  (11)3031-3529 

GRATUITO

O Grupo de Estudos é o espaço de debate e troca de experiências e informações sobre a prática do palhaço e sua especificidade junto a instituições psiquiátricas.

Duas impressões – bem diferentes – sobre o nosso trabalho

setembro 24, 2008
  • I. Natalia Bonfim, paciente do Instituto A Casa, nos escreve:

O palhaço que não acredita em Deus

Quarta feira é dia de música no hospital-dia, mas a esta altura o som já havia silenciado. Lá fora, no jardim, fora eu restaram mais três pessoas, o palhaço Bonito e a palhaça Du’Porto. Conversavam palhaçadas e eu ouvia, quieta, rindo… Não gosto muito de palhaços, especialmente os do circo, não vejo um pingo de graça nas apresentações, mas a gente se afeiçoa a certas pessoas… e eu me afeiçoei aos palhaços. Especialmente depois desta quarta feira que eu vou contar.
Comigo e os palhaços estavam Romero, Cristina e Luciano (esses nomes foram modificados, para preservar a identidade dos pacientes). Cristina começou a falar em Deus com Du’Porto. Eu estava sentada ao lado do Bonito. Ele vira e me pergunta: “Você acredita em Deus?” Eu respondo que não com a cabeça. Ele diz que não também, bem baixinho, como se estivesse contando um segredo. Depois reafirma, mais alto: “Eu também não acredito em Deus”, apontando para cima. Meus olhos dizem alguma coisa que até agora não sei dizer… Não é fala que se espera de um palhaço com nariz vermelho. O que eu vi foi o palhaço se despir, mostrar-se apenas humano… Ele teve essa coragem! E foi lindo, eu fiquei estupefata, raramente alguém faz isso.
Depois de um tempo levantamos. Os palhaços precisavam almoçar. Sentei num banco perto da cozinha, não deu dois minutos para a cozinheira me oferecer “um pouquinho de comida”, “só um pouquinho”. Du’Porto, ouvindo o convite para o almoço que rejeitei, senta ao meu lado e pergunta: “Posso te contar um segredo?” Então ela se despe também. “Já pesei 140kg e já pesei 40kg. Hoje eu descobri que o importante é a gente estar bem com a gente mesmo.”
Definitivamente os palhaços não queriam me fazer apenas rir, mas estavam contando seus segredos, tirando suas máscaras, queriam me fazer bem. Fiquei pensativa demais. Lembrei de uma frase do Shakespeare que diz: “A vida é apenas uma sombra ambulante, um pobre palhaço que por uma hora se espavona e se agita no palco, sem que depois seja ouvido; é uma história contada por idiotas, cheia de fúria e muito barulho, que nada significa.”
Precisei de um café. E depois com ele vomitei meu pensamento shakespeariano. Não concordo com ele… A vida não tem sido uma história contada por idiotas, mas por pessoas boas que me contam que não acreditam em Deus e quantos quilos já pesaram. Me senti bem, e o sentir-se bem fez lembrar que eu também sou ser humano, mas não sei ser. O ser humano sente fome… e eu estava sentindo. Foi aí que começou. Pequei mais um dos muitos copos de café que tomei naquela tarde para preencher o buraco do estômago. E vomitei muito. Até passar mal. De noite não dormi, tanto era o enjôo.
No dia anterior eu não havia comido nada de sólido, então estava realmente com fome. Agora eu ponho um nariz de palhaço, abaixo a cabeça e conto o que fiz. Deus não estava me olhando. Ninguém estava me olhando. Eu estava sozinha com a minha fome. Agora estou com você e a minha vergonha. Passei perto do lixo, vi um bife inteiro, pensei: “não parece tão sujo”. E peguei… E comi. Como uma mendiga. É triste demais fazer isso. Fui para o banheiro primeiro para vomitar, depois para chorar.
A vida não é palhaçada, não… é só o que tenho a dizer. O resto? O resto só Deus sabe….

  • II. A comissão julgadora da Lei de Fomento à Cidade de São Paulo nos escreve:

Comentário sobre projeto não contemplado pelo Programa de Fomento ao Teatro na Cidade de São Paulo

Comissão Julgadora: Berenice A. Raulino de Oliveira, Felisberto Sabino da Costa, Jane Pessoa da Silva, Marcos Marcelo Soler, Maria das Graças Cremon, Renato Ferracini, Silvia Fernandes da Silva Telesi

“O trabalho é digno – palhaços em hospitais psiquiátricos – mas a pesquisa artística deixa muito a desejar. Não há investigação nem compartilhamento e o foco está colocado no atendimento e em encontros que o grupo já realiza com os pacientes.
É um trabalho muito novo, pois a equipe tem apenas dois anos, e ainda há muito a pesquisar. Existe uma linha tênue entre ficção e delírio. Se o grupo conseguir pensar o fazer teatral, qual é o impacto do teatro na vida das pessoas, na formação do ator, em dramaturgia, estará apto a ser fomentado. É preciso unir o que estão vivendo com os pacientes a uma proposta artística.”

Projeto Humanitas

setembro 12, 2008

Na última quarta feira, os Fantásticos Frenéticos acordaram cedo, muito cedo, para dar mais uma palestra, dessa vez no Projeto Humanitas. Convidados por Arthur Tufolo e Júlio César Ramos de Oliveira, os palhaços “discursaram” e debateram com uma turma de estudantes de psicologia. Tudo isso às 8h da manhã.
Os temas abordados foram os mesmos que têm nos seguido em nossas palestras recentes: a especificidade do palhaço na instituição psiquiátrica, o estado do palhaço entre jogo e realidade, um palhaço que se molda e se transforma a partir do encontro com o paciente, e que não se apóia necessariamente em uma performance para ele, mas sim na informalidade da relação com ele…
É assim, através dessas palestras, que continuamos a desbravar o mundo e também levar nossa experiência a organizações, institutos, universidades… o que só enriquece nosso trabalho artístico no hospital.


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